quarta-feira, novembro 14, 2007

Ainda existe muito preconceito sobre a cultura gótica. Em grande parte por causa desses pré-adolescentes wannabe de rebeldes e confundem qualquer tipo de manifestação artística subversiva com "ser diferente" e irritar os pais. Tem gente inclusive que, por conta disso, acha que emo e gótico é praticamente a mesma coisa (acreditem, eu já conversei com gente que pensa isso). No intuito de esclarecer esses equívocos eu escrevi um texto que entrou na revista Pequeno Almanaque Gótico e que eu reproduzo aqui, na íntegra. Espero que apreciem.


...


"Quando se fala em 'gótico', todos têm uma idéia, por mais vaga que seja, sobre o termo ou sobre algo que se relacione a ele. Alguns pensarão na estética arquitetônica medieval sob a qual foram construídas famosas catedrais, como a de Notre Dame, em Paris e a Catedral Metropolitana de Vitória no Espírito Santo. Outros, relacionarão ao movimento cultural urbano da década de 80 com suas bandas de rock e sua rebeldia. Outros ainda pensarão em ambientes sombrios, cemitérios, morcegos ou então em adolescentes vestidos de preto e usando maquiagem pesada. E ainda haverão aqueles que relacionarão o gótico ao satanismo ou ao diabo e coisas profanas e demoníacas. Como é que todas essas visões podem se reunir dentro de um único termo? Elas representam realmente a realidade? O que é o gótico afinal? E o que isso tem a ver com esta revista?

O termo gótico remonta suas origens aos godos, uma tribo de bárbaros germânicos que invadiram a Europa no século IV d.C. – época conhecida como 'Idade das Trevas', com a decadência do Império Romano e as invasões dos povos bárbaros querendo se estabelecer sobre os escombros do Império decadente. Da conturbada Idade das Trevas adveio a Idade Média. No século XIV houve um resgate da cultura greco-romana no movimento conhecido como Renascença. Não apenas da cultura convencional, mas também da underground. Existe uma certa literalidade nessa informação, pois ainda no século IV foram descobertas as ruínas do palácio Domus Aurea (do latim, 'Casa Dourada'), um palácio subterrâneo construído sob as ordens do imperador Nero. Nas paredes das galerias desse palácio haviam pinturas de conteúdo explicitamente pagão, exibindo cenas de banquetes orgiásticos orquestrados por criaturas metade humanas, metade animais. Tais pinturas acabaram influenciando um estilo de arte que ficou conhecido como grotesco (termo derivado do latim grotto, que significa gruta, caverna). A arte grotesca tinha a característica de ser, ao mesmo tempo, fascinante e repulsiva. Ewa Kuryluk, em sua obra Salome and Judas in the Cave of Sex, escreve:

Tendo suas origens nos resquícios da antiguidade bestial, o propósito do grotesco era se centrar na revelação de tudo que era contra o contexto, contra os cânones da religião e as leis do Estado, contra a arte e a sexualidade acadêmicas, contra a virtude e a santidade, as instituições estabelecidas, as cerimônias e a história oficial. Os artistas do grotesco desenterraram lendas folclóricas obscuras e doutrinas secretas sem nunca se cansarem de explorar a obscenidade e o criminoso, aquilo que era sombrio, subterrâneo e macabro.

Entre os séculos XII e XV surgiu um novo estilo arquitetônico, representado principalmente pelas edificações eclesiásticas: catedrais, monastérios e igrejas. Arcos ogivais, vitrais, leveza estrutural, amplos espaços internos, dando a sensação de submissão a um poder maior; tudo isso aliado a gárgulas e ornamentos sinistros e de conteúdo místico, como mandalas e símbolos religiosos. Esse estilo surgiu para se contrapor ao Clássico grego-romano, de linhas retas e iluminação precária; foi apelidado de gótico justamente por ser uma estética que, assim como os godos de dez séculos antes, tentava derrubar as manifestações culturais romanas na sociedade de então.

O surgimento da estética arquitetônica gótica encontrou correlativos em outras áreas da cultura européia da época e a literatura foi seu expoente mais significativo. A insatisfação da sociedade medieval com os dogmas religiosos, com os valores da antiguidade e com o que se achava 'bom' e 'belo' na época; também era contra os ideais racionalistas do Iluminismo, que tentava explicar o mundo através da razão. Os escritores dessa época que foram chamados de góticos percebiam que a razão não dava conta da existência humana, que é sempre permeada de sentimentos, emoções, sensações e intuições de mundos além da imaginação. Lançando mão de folclore, misticismo, doutrinas ocultas, forte apelo emocional e fuga para mundos sombrios e fantásticos que se mostravam muito mais interessantes do que a sociedade de então, através da literatura buscava-se o sublime, muito mais extasiante do que a beleza convencional e superficial da cultura clássica. Por conta dessa busca pelo que é ao mesmo tempo assustador e atraente, perturbador e emocionante, luz e escuridão, prazer e dor, o gótico se aproxima e abarca o grotesco. No lugar de viver como todos, numa igualdade tediosa, a proposta gótica apresentava um mundo mais complexo, profundo e mágico.

Muitas foram as transformações e as manifestações artísticas e culturais góticas ao longo dos anos até os dias atuais. Falaremos mais sobre elas nas próximas edições (literatura do século XIX, cinema do começo do século XX, anos 80 e movimentos recentes). O importante é dizer que o gótico sempre foi contra-cultura, aliando idéias paradoxais para compor a sua essência, tais como sexo e morte, sagrado e profano, belo e horrível. Esses paradoxos compõem também a essência das nossas histórias, nas quais buscamos mostrar que, se existe uma época de paradoxos na existência humana, a época é atual. Estamos vivos e a morte está em cada esquina; precisamos nos desesperar para conseguirmos ser felizes; o terror faz parte do nosso dia-a-dia. Isso é fascinante.

Boa viagem!"

Antigo postem no outro mais acima :P



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