sexta-feira, agosto 20, 2010

O CÃO E O TEMPO


A relação entre humanos e cães é tão antiga que os historiadores são incapazes de precisar quando começou. O que se sabe é que eles se aproximaram dos homens por causa da comida e os homens os adotaram para caça e guarda. Foi o primeiro animal a ser domesticado e aquele com o qual conseguimos estabelecer melhor relacionamento. O homem, através dos tempos os modificou e moldou de acordo com suas necessidades e desejos, dando a eles as mais diversas aparências e temperamentos, criando-os para os mais diversos fins, como, por exemplo, companhia e guia.
O cão, por sua vez, aceitou o homem como parte de sua matilha, tendo esse geralmente como chefe, mantendo com ele uma ligação quase mística e dedicando-lhe todo o seu cuidado e carinho. Meu tio, que morava no interior, certa vez veio para a cidade fazer compras, foi atropelado e ficou internado com fraturas múltiplas. Seus cães uivaram sem parar naquela noite. Não tinha sido a primeira noite que meu tio passava na cidade, mas era a primeira em um hospital. Eles sabiam que seu dono estava machucado, não me perguntem como, mas eles sabiam.
Meu bisavô, pai do pai da minha mãe, Zé Rocha, era um velho negro, alto e forte, que não aparentava a idade que tinha. Era silencioso, pouco falava, mas quando abria a boca todos o ouviam e ninguém desobedecia. Seu nome era pronunciado com respeito e sempre cercado de misticismo. Dizem, por exemplo, que ele disse com exatidão o dia em que morreria. Meu bisavô pegou minha bisavó, índia, literalmente a laço, casou com ela e constituiu família. Sempre a respeitou. Quando novo, matou um punhado de homens, atirava bem e manipulava uma faca como ninguém, e quando velho mandou matar mais alguns. Não porque era ruim, apenas havia vivido em outro tempo, onde a lei funcionava de forma diferente e o homem tinha que literalmente lutar pelo que era seu. Quando minha mãe nasceu, meu bisavô a pediu para ele, e meu avô, filho obediente a deu, e por isso ele tinha um carinho especial com ela, e consequentemente comigo. Sempre que eu ia em sua casa ganhavam um bombom, e naquela época, um bombom era uma iguaria rara. E foi ele, meu bisavô, que me deu o meu primeiro cão. Não havia no mundo ninguém melhor para pedir. Minha mãe jamais negaria um presente dado por ele, eu sabia disso, apesar de ter só 5 anos de idade.
Meu bisavô sempre usava botas, calça social e camisa de botão de mangas compridas, e quase sempre um chapéu. Até hoje quando penso nele, a primeira imagem que me vem a cabeça é do velho Zé Rocha chegando em nosso quintal, exatamente desse jeito, montado em um enorme cavalo marrom, que parecia ainda maior por causa do meu pouco tamanho, tirando lá de cima um filhote de cachorro cuja cor mesclava marrom claro com preto e me entregando. O nome dele eu não lembro e onde tirei, mas era Chulim. Toda criança deveria ter um cachorro, especialmente uma como eu, que morava no meio do nada e não tinha contato frequente com outras crianças. Chulim era meu companheirão, colega de brincadeiras e parceiro em explorações pelos pastos afora, mas ele não viveu muito.
Certo dia acordei de manhã sob o som de pessoas conversando alto em minha janela, e quando saí ouvi alguém dizendo que achava que meu cachorro tinha raiva. Eu tinha apenas 7 anos e não lembro quais eram os sintomas de raiva que alegaram que ele tinha, mas eu o vi, estava inegavelmente doente, escondido embaixo da casa, logo abaixo de onde era meu quarto. Lembro claramente da imagem dos olhos dele, brilhando em minha direção, eu não sabia exatamente o que era raiva, mas não achava que ele parecia ter isso. Sei que era de manhã, mas minha lembrança é escura, lembro de alguém falando em pegar a arma para sacrificá-lo, mas não lembro se foi assim que ele morreu. Lembro apenas do Chulim estendido atrás da casa, já morto, de alguém tê-lo virado e de ter saído de sua boca um liquido marrom e espesso. Alguém disse então que ele não tinha raiva, e sim que tinha sido envenenado. Só depois entendi aqueles olhos brilhantes em minha direção, meu amigo estava pedindo minha ajuda, e eu não pude ajudar. Aquele dia entendi o que era a morte, e não gostei dela. Também aprendi um pouco sobre a natureza humana. Chulim me ensinou.
Pouco depois disso eu e meus pais viemos para a cidade, eu passava quase o dia todo preso em um apartamento pequeno, e não pude ter outro cão, mas eu queria um, e queria dar a ele também o nome de Chulim. Fazer como meu tio, que depois de ter um vira-latas com sangue de pastor alemão chamado Duque, que viveu 18 anos, sempre batizava um novo cão com o mesmo nome, sempre na esperança de que esse fosse tão inteligente e companheiro como o primeiro, mas nunca nenhum outro foi. Não como aquele.
Mais de 20 anos se passaram até eu ter outro cachorro. Depois de vir morar com a Marina, e ela começar a cantar a vontade de ter um cãozinho, eu não precisei de muitos argumentos para ser convencido. Como ainda moramos em um apartamento, tinha que ser uma raça pequena, e de preferencia com pelo curto, e apesar de nutrir uma certa antipatia pelo pinscher, foi essa raça que escolhemos. Depois de alguns contatos e ligações, fomos buscar a Tuca, que por mim se chamaria Tux, um filhotinho preto e marrom, de orelhinhas caídas e olhos grandes, que derreteu o coração da Marina assim que a pegou no colo.
A Tuca foi desmamada antes da hora, com 30 dias quando deveriam ser 45. Chegou aqui cheia de vermes, pulgas, carrapatos e diarreia. Senti no que tinha me metido logo na primeira noite sem dormir, porque ela não parava de chorar. Com certeza, apesar de todo o carinho e da cama em forma de sapato na qual ela mal conseguia subir, a noite era a hora em que ela mais sentia falta da mãe. Foram três noites que passei em claro cuidando dela, enquanto a Marina dormia feito uma pedra. Certa manhã a procurei e me assustei por não achar, olhei embaixo de tudo e não entendia como ela tinha desaparecido, até encontrá-la enrolada dentro do cobertor da Marina, peludo feito um urso, em uma parte que havia caído no chão. Aquela noite ela deve ter achado que tinha reencontrado a mãe.
Com muito custo o filhote doente se tornou uma cachorrinha saudável, se antes não entrávamos calçados em casa por conta das doenças que poderíamos trazer, agora o fazíamos para não ter nossos calçados destruídos, e a caminha na qual ela mal conseguia subir sofria sendo rasgada e arrastada pela casa. A Tuca roeu nossos móveis, destruiu diversos sapatos e nosso sofá, ao ponto de eu não querer tê-la mais em casa. Resolvemos dá-la para os outros. Às 18 horas a Marina levou a Tuca de presente para nossa empregada, e às 23 horas fomos buscá-la de volta. Por mais estragos que causasse uma coisa era inegável, a Tuca gosta de nós incondicionalmente, e por isso é impossível não gostar dela. Enquanto estamos em casa, ela não nos larga, pede comida, colo, carinho e atenção, quer sempre brincar ou só ficar deitada ao nosso lado. Quando chegamos em casa, não importa se saímos por apenas 10 minutos, ela repete sempre aquela mesma festa, como se estivéssemos longe por dias, e quando estamos no primeiro andar, aqui no quinto ela já festeja nossa chegada, e com toda a ansiedade do mundo. A Tuca é a prova que o temperamento do cão vem muito mais da forma como é criado do que de fatores genéticos, pois tem instinto de cão de guarda mas balança o rabo (o cotoco) e faz festa para qualquer um que aperte nossa campainha, e pula no colo de qualquer pessoa que nos visita. A Tuca que quando era filhote tinha o cesto de roupa suja como lugar preferido, e que hoje prefere estar sempre em qualquer lugar onde estejamos.. A Tuca que pula na lagoa e nada até nós, mesmo não gostando muito de água. E também a Tuca da qual sempre sentimos saudades quando estamos longe. Assim é o cão, quer sempre estar com seu dono, no calor de uma casa, no frio das ruas, na chuva de uma caçada ou no sol de um passeio. Um amigo fiel a qualquer tempo.

Rodrigo Caliman

Antigo postem no outro mais acima :P



9 Comments:

Anonymous Alcure said...

Por isso que eu falo que sem a Serena eu não sou ng :P Assim como foi com a Pretinha, hahahaha.

3:06 AM  
Blogger BonaTTo said...

Sem sombra de dúvida esse é o melhor texto que você já escreveu.

"Foram três noites que passei em claro cuidando dela, enquanto a Marina dormia feito uma pedra"

hauhauaua

8:45 AM  
Blogger Robson Calefi said...

Fantástico o texto, realmente emocionante. Parabéns

10:04 AM  
Anonymous Psycrow said...

Aqui em casa foi mais ou menos assim tb com a Serena, além de termos perdido a Pretinha, a Serena veio com parvovirose. Foi tenso, mas a bixa sobreviveu e tá mais gorda que eu, uauhauhauhauh.

2:27 PM  
Anonymous cHiPs said...

Parabens! Dessa vez vc não falou nenhuma besteira :P huahuauhahuuha... a Tuca, aparentemente, teve de onde puxar a teimosia.

6:50 AM  
Blogger bonna, generval v. said...

muito bom! entendo perfeitamente o afeto canino. tenho uma cachorrinha em casa da raça GATO com o nome Judy que sempre faz festa quando eu chego, dorme do meu lado toda noite, come metade da minha granola, fica olhando pra fora do portão quando eu saio. Companheirona!

anteontem um video sobre companheirismo canino me arrancou muitas lágrimas! recomendo: http://bandofrock.blogspot.com/2010/08/nao-consigo-pensar-num-titulo.html

4:12 PM  
Anonymous Marina Thebaldi said...

Muito lindo esse texto, menino.

Expressa o que eu também sinto pela nossa Putuca.

Me fez lembrar de episódios muito engraçados da Tuca quando filhote.

Lindo!!!

10:34 AM  
Blogger D'Isep said...

Este comentário foi removido pelo autor.

9:21 AM  
Blogger D'Isep said...

Certa vez apareceu um cão todo perebento na casa de um amigo, em Ponta da Fruta. Deram lhe o nome: de "coisa feia". Era um cachorro vira-latas, manco e sujo. deram de comer, trataram suas feridas, esfregaram seu pêlo com água, sabão e enxofre. Adorava ouvir the clash e beatles, sempre sentado perto da porta dos fundos. Um dia, o "coisa feia" saiu pela rodovia do Sol e nem se despediu. Ele morreu atropelado horas depois que saiu da casa de meu amigo. "Coisa feia", putz... Chegou cabisbaixo e morreu honrando sua liberdade. Adorei ter tido a companhia daquele cão.

9:29 AM  

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