domingo, novembro 07, 2010

Um pouco sobre a ditadura militar em Colatina



Acredito que o que a maioria dos colatinenses conhece sobre a Ditadura Militar brasileira é que foi um período em que os militares governaram o Brasil marcado pela falta de democracia, censura, perseguição política e repressão aos que eram contra esse regime. Algo distante de nossa realidade, algo que não nos afetou diretamente. Você pensa assim? E se eu dissesse que está enganado?

O que muita gente não sabe é que nosso município também sofreu por conta dessa atmosfera de repressão dos militares. Aqui houve significativa influência do integralismo, perseguição, prisões e até cassação de um Deputado Federal colatinense. E onde está a documentação escrita de todos esses acontecimentos? Muito pouco existe. 
 
Por sorte ainda temos pessoas que viveram esta realidade e podem nos contar e provar o que aconteceu aqui. Uma dessas pessoas, a qual preciso de autorização para citar o nome, aceitou dar uma entrevista sobre o que viveu e viu acontecer nesse período turbulento de nossa história. O próximo post será justamente sobre essa entrevista. 
 
Para iniciar nosso assunto, irei relatar um pouco da história do Dr. Ramon de Oliveira Neto, deputado federal colatinense que figurou na primeira lista de políticos cassados pelo golpe de 64, junto com Jango e Prestes. Acredita-se que, devido à suas ideias menos tradicionais, antes do golpe, estava sendo cogitado para assumir o governo do estado. Foi foco da atenção dos militares por ser considerado comunista, numa época em que isso era considerado “uma doença infeciosa” pelos militares.

Segundo um artigo do Século Diário (fonte) Dr. Ramon é natural do RJ. Pobre em sua infância e adolescência, teria passado por muitas dificuldades e humilhações. Foi engraxate e sempre se vestia mal, por não ter dinheiro para comprar vestimentas adequadas. Porém, quando jovem, mostrou-se estudioso e idealista. Devido aos seus grandes esforços, foi aprovado na faculdade de medicina. Nas pensões que conseguia para morar, os percevejos eram seus companheiros. Até conseguir sua estabilidade financeira passou por situações de privação e provação. Já médico formado, veio a Colatina cuidar de um sobrinho adoentado e gostou da cidade. Daqui só saiu por força da repressão.

Ainda de acordo com o artigo do Século Diário a exemplo de outros médicos, foi também a medicina que o fez político. Operou muitos doentes em Colatina nos anos em que esteve por aqui. Conta-se que sua política era de que “pagava quem podia e não pagava que não podia.” Entre vários descendentes de alemães e italianos, que moravam no interior, acreditava-se que “Dr. Romão” era um grande curandeiro, dado o êxito de suas cirurgias.

No entanto, faltava a Dr. Ramon uma característica da maioria dos políticos da cidade: ser católico. Ele era declaradamente agnóstico e não abria mão disso numa época em que frequentar a igreja era ponto “sine qua non” para ser bem falado. No entanto, sua atuação como médico e a fama adquirida a partir disso eram maiores que esta tradição.

Faltando 49 dias para as próximas eleições o então dirigente do PTB, Moacir Brotas, lhe fez uma proposta para ser candidato a deputado federal. E ele aceitou. Fez um santinho e distribuiu fazendo propostas ousadas para a época, como a reforma agrária. Seus conhecidos ideais de esquerda entusiasmaram uma parte da população, mas acredita-se que o grosso de seus votos tenham vindo de sua atividade profissional. 
 
Foi mais ou menos assim que conseguiu dois mandatos de deputado federal. Aos 32 chegou à Câmara dos Deputados, aos 39 foi cassado por ocasião do golpe militar, era o 13º de uma longa lista. Não muito tempo depois, foi embora de Colatina devido ao fato de ser foco de intensa vigilância. Uma simples aglomeração em frente ao seu consultório já poderia ser um motivo para desconfiança. 
 
Em depoimento disse sobre sua saída de Colatina: "Deixei grandes amigos por lá. O maior deles todos era o Dioniso Dalla Bernardina, coincidentemente concunhado do meu maior adversário na região: Oswaldo Zanello. Eu não ia a igreja lá mas cuidava da saúde do padre, da irmã de caridade. Lembro com saudades do padre Paulo Egidio, do Colégio Marista, e da irmã Paula, da Eucaristia. Eu não acreditava em Deus mas esses dois religiosos faziam campanha para mim".

A surpresa final é que não confirmou ser de fato comunista. Alegou somente que "jamais negaria uma coisa que iria contribuir para depreciar os comunistas. As minhas ideias sempre coincidiram em vários pontos com as deles. O rótulo nunca me fez mal e muito menos me incomodou. Só me deu alegria pela companhia.”


Essa e muitas outras histórias sobre nossa cidade precisam ser contadas e preservadas. 
 
Peço desculpas por não fazer uma melhor referência quanto às fontes que utilizei par obter essas informações. Na verdade, este é um artigo em construção. Só resolvi fazer uma pequena demonstração. Tem muito mais coisas para escrever.

Até a próxima.

Antigo postem no outro mais acima :P



1 Comments:

Blogger BonaTTo said...

Esse é um tema muito interessante e muito pouco conhecido por nós. Acredito que a maioria dos Colatinenses nem faz idéia do que aconteceu por aqui.

Já fico no aguardo do artigo completo!

2:40 PM  

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